O Executivo e a síndrome das telas
Vivenciamos um tempo como nunca em diagnósticos de síndromes e situações psicológicas dos tempos moderníssimos. Em um mundo cada vez mais digital, relações humanas pessoais vêm perdendo dia a dia seu espaço e como consequência percebemos um afastamento existencial entre executivos e a base.
Por horas sentados em suas cadeiras confortáveis e com o ar-condicionado ajustado para criar um ambiente “propício a produtividade”, executivos administram suas organizações somente atrás de telas. Analisando números, índices, gráficos, projeções, realizando pesquisas digitais, comparando situações, trocando e-mails e mensagens instantâneas. Ao final do dia parecem que não fizeram nada de produtivo.
Abro aqui um paralelo entre o ambiente corporativo e o uso de telas na infância e adolescência. A Sociedade Brasileira de Pediatria[i] – SBP recomenda:
- Limitar o tempo de telas ao máximo de uma ou duas horas por dia para crianças com idades entre 6 e 10 anos;
- Limitar o tempo de telas e jogos de videogames a duas ou três horas por dia para adolescentes com idades entre 11 e 18 anos;
- Para todas as idades: nada de telas durante as refeições e desconectar uma a duas horas antes de dormir.
Mas este artigo trata de executivos, pessoas adultas, maduras e logo “senhores de seus atos”, o que pediatras podem ter a ver com isso? A SBP conclui seu relatório afirmando que com estes pequenos gestos é possível evitar:
- Problemas de saúde mental: irritabilidade, ansiedade e depressão;
- Transtornos do déficit de atenção e hiperatividade;
- Transtornos do sono;
- Transtornos de alimentação: sobrepeso/obesidade e anorexia/bulimia;
- Uso de nicotina, vaping, bebidas alcoólicas, maconha, anabolizantes e outras drogas.
Estas situações acima não são familiares no mundo corporativo? Conhece executivos que chegam em casa exaustos e com a sensação de que o dia não rendeu, que não foi produtivo? Pessoas que ficam vidradas na tela do celular ansiosas pela mensagem que não chega. Executivos e gestores que possuem os sintomas similares aos relatados pela SBP, e vivem situações como:
- Hoje preciso de um drink para aliviar a tensão!
- O que você falou? Deixa só responder essa mensagem aqui e conversamos.
- Não tenho tempo para pensar em academia, esportes ou hobby.
- Menino! Já te falei que estou cansado!
- Tenho que fazer tudo!
Gestores que recebem pessoas e ficam olhando para suas telas ou celular…que afirmam “pode falar eu consigo fazer duas coisas ao mesmo tempo”… “só um minutinho, espera eu atender essa ligação que é muito importante”… vão se distanciando cada vez mais do humano, da relação interpessoal, da vinculação pessoal e com isso são engolidos pela Síndrome das Telas!
A Síndrome das telas[ii], enquanto tem o poder de encurtar distancias para quem está longe, acaba por afastar quem está perto. A falta de vínculos pessoais desumaniza o ser humano que passa a relativizar o que é essencial. O excesso de telas tira a consciência que para se alcançar metas, cumprir os acordos com todos os personagens envolvidos no mundo empresarial ou executar o planejamento estratégico, as pessoas são imprescindíveis.
A Síndrome das telas tenta padronizar as reações, tira a individualidade e despersonaliza a pessoa! O antídoto para essa síndrome é a Cultura do Encontro[iii], “não olhar apenas, mas ver; não ouvir apenas, mas escutar; não só cruzar com os outros, mas parar”. Gestos simples que impulsionarão de forma exponencial os resultados empresariais.
Além disso as novas gerações Z e Alpha, nascidos digitais, começam a ocupar lugares de gestão e logo estarão no topo. Saberão elas a importância das pessoas? Saberão criar vínculos de longo prazo? Terão habilidade para equilibrar tela X vida real?
De forma prática deixo algumas dicas para proporcionar o equilíbrio e nos afastar da síndrome das telas:
- Baixar a tela do notebook ao falar com alguém;
- Deixar o celular ao lado, com a tela para baixo ao receber alguém;
- Não se esconder “atrás das telas” limitando o tempo de telas diário;
- Estabelecer uma rotina de visita periódica ao chão de fábrica ou ao local da prestação de serviços;
- Estabelecer janelas para visitas a clientes e fornecedores;
- Nunca tomar uma refeição sozinho em horário comercial e variar com quem se senta;
- Estabelecer uma política de portas abertas;
- Trocar algumas vezes o envio de mensagens por uma ligação;
- Ao conversar com alguém estar ali de corpo e alma.
José Kentenich já nos ensinava no início do século XX “Estou inteiramente à vossa disposição com tudo o que sou e tenho: com meus conhecimentos e capacidades e com minhas limitações; mas, sobretudo, vos pertence o meu coração”[iv].
Um conselheiro deve fomentar um ambiente de vínculos pessoais, a Cultura do Encontro, deve estar mergulhado inteiramente no momento, e respeitando a multidisciplinariedade e diversidade de pensamentos, encontrar pontos convergentes para a longevidade da companhia. Caso contrário enquanto o executivo só olha para sua tela as melhores oportunidades voam… e seus melhores colaboradores se tornarão diretores… mas no concorrente!
[i] https://www.sbp.com.br/imprensa/detalhe/nid/sbp-atualiza-recomendacoes-sobre-saude-de-criancas-e-adolescentes-na-era-digital/
[ii] Síndrome das telas é um conceito do autor
[iii] Jorge Mario Bergoglio, Papa Francisco, homilia da benção dos óleos, 2016
[iv] Pe José Kentenich, documento de fundação de Schoenstatt
