O Conhecimento de Si e do Outro

Deus Criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou” Gn 1,27

Deus na sua infinita sabedoria, criou o homem e a mulher completamente diversos, para que pudessem se atrair e se complementar. Se pararmos para analisar, veremos que em tudo são diferentes, no físico, no racional, no afetivo e no sobrenatural, são distintos na forma de pensar, de sentir, agir e reagir.

O homem é fisicamente mais forte, combativo, de raciocínio frio e rigoroso, objetivo e preso ao essencial,  a mulher é mais graça, intuitiva, cordial, mais perceptiva, compreensiva, sensível ao todo.

Enquanto uma mulher consegue guardar datas, encontrar facilmente “meias” na gaveta, chorar com os acontecimentos, ter forças intermináveis para defender os filhos, pensar em inúmeras coisas simultaneamente e ter delicadeza para todas as coisas, o homem pensa que tudo está colocando em prova sua virilidade, consegue mover objetos pesados, encontrar uma pessoa no meio de uma multidão distante, focar em uma única atividade ou decidir rapidamente de forma lógica sobre um assunto.

Enquanto o homem olha uma situação de forma geral, analisando racionalmente o fato, a mulher tem o culto do pormenor, dos detalhes, dos odores, dos gestos, do ritual. Enquanto as ações do homem são brutas e “violentas” a das mulheres são delicadas e pacientes. Enquanto a visão da mulher está atenta aos detalhes, a do homem é mais espacial.

Desde criança, estudos já mostram que em idade pré-escolar o cérebro das meninas já está estruturado para responder a pessoas e rostos, enquanto dos meninos respondem a objetos. O teste tratou de mostrar fotografias de pessoas e coisas, ao final os meninos lembravam dos objetos e as meninas dos rostos e expressões. Em um estudo em cinco países ocidentais foi pedido a homens e mulheres que descrevessem o tipo de pessoa que gostariam de ser. Os homens escolheram corajoso, competitivo, capaz, poderoso, habilidoso, já as mulheres preferiram na mesma lista de adjetivos, meiga, gentil, solidária, afável, atraente. Para elas vem em primeiro lugar o servir e conhecer gente, para eles o prestígio e os bens materiais (PEASE, 2000). O homem vive no mundo das coisas, enquanto a mulher está no mundo das pessoas. O papa Pio XI afirma : “Se efetivamente o homem é a cabeça, a mulher é o coração (do lar); se um tem o primado do governo a outra (a mulher) deve atribuir-se o primado do amor” (encíclica CASTI CONNUBII)

“Homem e mulher diferem de tal modo no plano psicológico que podem vir a se chocar com tamanha violência ferindo-os profundamente” (TOALDO, 2003). A ciência vem a cada dia explicando melhor a constituição do cérebro masculino e feminino, de forma a compreender as suas diferenças, possibilitando o  conhecer-se e conhecer o outro, para em conjunto tomarem cuidado para que o choque não  ocorra.

Deus cria a mulher a partir da costela de Adão, dando o ideia que ambos estão no mesmo nível, tem a mesma “altura”, ou seja Deus cria o homem e a mulher diferentes em modalidade porém iguais em dignidade. É de ressaltar-se antes de tudo a igual dignidade e responsabilidade da mulher em relação ao homem: tal igualdade encontra uma forma singular de realização na doação recíproca de si ao outro e de ambos aos filhos” (FC22).

O homem e a mulher são criados, isto é, são queridos por Deus: por um lado, em uma perfeita igualdade enquanto pessoas humanas, e por outro, no seu ser respectivo de homem e de mulher. “Ser homem”, “ser mulher” é uma realidade boa e querida por Deus: o homem e a mulher tem uma dignidade inamissível que lhes vem diretamente de Deus, seu Criador. O homem e a mulher são criados em idêntica grande dignidade, “a imagem de Deus”. No seu “ser-homem” e seu “ser-mulher”, refletem a sabedoria e a bondade do Criador. (CIC 369)

Se Deus criou dois seres com características completamente distintas, seja no físico, no racional, no afetivo ou no sobrenatural, é porque em seus desígnios desejou que o ser homem e o ser mulher, se expressassem de forma diferente, sendo assim longe de nós deveriam estar os movimentos e ideias que pretendem igualar Homem e Mulher, destruindo assim a sua complementariedade.

Jamais poderá existir, entre marido e mulher, o espírito competitivo que leva cada um a ver no outro um rival. Quanto mais a mulher for autenticamente feminina e o homem autenticamente masculino, maior riqueza e beleza haverá na sua unidade (AQUINO, 1994).

“Ao criar o homem varão e mulher, Deus dá a dignidade pessoal de igual modo ao homem e à mulher, enriquecendo-os dos direitos inalienáveis e das responsabilidades que são próprias da pessoa humana. Dirá o Apóstolo Paulo: Porque todos vós sois filhos de Deus, mediante a fé em Jesus Cristo … Não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (FC 22)

O homem e a mulher são feitos “um para o outro”: não que Deus os tivesse feito apenas “pela metade” e “incompletos”; criou-os para uma comunhão de pessoas, na qual cada um dos dois pode ser “ajuda” para o outro, por serem ao mesmo tempo iguais enquanto pessoas (“osso de meus ossos…”) e complementares enquanto masculino e feminino. No matrimônio, Deus os une de maneira que, formando “uma só carne”, possam transmitir a vida humana. (CIC 372)

“O amor conjugal autêntico supõe e exige que o homem tenha um profundo respeito pela igual dignidade da mulher: Não és o senhor – escreve Santo Ambrósio – mas o marido; não te foi dada como escrava, mas como mulher… Retribui-lhe as atenções tidas para contigo e sê-lhe agradecido pelo seu amor. Com a esposa o homem deve viver uma forma muito especial de amizade pessoal. O cristão, é, além disso, chamado a desenvolver uma atitude de amor novo, manifestando para com a sua esposa a caridade delicada e forte que Cristo nutre pela Igreja” (FC25), igual atitude deve ter a esposa pelo seu marido.

O individualismo vai perdendo espaço para a comunhão do casal, para que sejam uma só carne, na medida em que as diferenças vão se colocando a serviço do crescimento do cônjuge, onde as diferenças se tornam degraus para que o outro possa subir no caminho da santidade cotidiana. A descoberta do outro exigirá um “sim” sincero as diferenças, e um desejo profundo de desenvolver as potencialidades mútuas, empenhando-se a conhecer o outro, e isto se dá através do diálogo. O processo de adaptação conjugal dura a vida toda, mas a fase mais importante é o início da vida a dois, momento onde os cônjuges “deixam seu pai e sua mãe, e se tornarão uma só carne”.

Estatísticas apontam que quase 50% das separações ocorrem antes de 3 anos de matrimônio. E muitos dos motivos são exatamente a falta de entendimento das diferenças do ser. A perfeita adaptação psicológica exige boa vontade do casal. É preciso cuidar para que sobre a desculpa de “diferenças masculinas ou femininas” não se escondam maus hábitos, vícios ou comportamentos inadequados.

Assim como o ser homem e o ser mulher possuem características quase que divergentes, é importante conhecermos as “tendências” dos cônjuges, de forma a entender o que impulsiona a vida de um e do outro. Cada pessoa é diferente e possui reações diferentes, e isto se deve a uma força interior que chamamos de paixão ou tendência. Tornar-se uma só carne, nada mais é do que a busca constante pelo aperfeiçoamento do ser homem, e do ser mulher, não em sentidos contrários, mas em sentidos convergentes, onde o homem aprende a desenvolver habilidades “femininas” com sua esposa, e a mulher aprende a desenvolver habilidades “masculinas” com seu marido, é a busca pelo equilíbrio das paixões, a “racionalidade emotiva”, ou a “emoção racional”.

“Encontrar-se com a própria identidade e aceitar-se no que se é, a fim de tornar-se no que se pode e deve ser, na autenticidade da própria natureza, sempre será o princípio fundamental de partida de nossa formação” (CHIAPIN, 1979). Nos conhecermos a ponto de podermos construir nossa personalidade, formar-nos como seres humanos melhores e integrais, totais e harmoniosos é a tarefa mais importante que temos, afirma a psicóloga Irmã M. Ternes (TOALDO 2003).

 

TENDENCIAS (PAIXÕES)

 

Existem duas tendências ou paixões, também chamadas de forças que impulsionam a nossa vida, uma predomina sobre a outra. Desta forma, podemos conhecer o traço característico de nossa personalidade. As tendências são forças que influem no desenvolvimento de nossa personalidade e nos levam à prática de certos atos. Elas não são nem boas e nem ruins, precisam apenas ser conhecidas e podem ser enobrecidas. Enobrecimento significa plenitude, consiste em unir tais faculdades a um objeto nobre e bom que conduza a pessoa a decidir por valores que correspondam à dignidade do ser, imagem e semelhança de Deus.

As tendências são classificadas em duas: afetividade (uma força feminina) e combatividade (uma força masculina). Ambos estão presentes no ser homem e no ser mulher, não sendo exclusivamente de um ou de outro. Sendo perfeitamente possível  um homem ter uma paixão predominantemente afetiva, e uma mulher ser uma combativa.

 

 

A afetividade como impulso ao amor:

A pessoa (homem ou mulher) cuja estrutura emocional é marcada pela afetividade tende a se deixar guiar em seus atos pelo amor e pela doação. Sua personalidade é marcadamente afetiva e emotiva. O maior valor para a pessoa afetiva está na doação e preocupação pelo próximo.

O “afetivo” não vê dificuldades, pois é levado pelo amor, enfrenta tudo, supera-as, persevera com firmeza. No amor busca sempre a sinceridade, age com desinteresse próprio, esquece de si mesmo para ajudar e servir. Compreende o outro, se compadece com as aflições e privações dos outros.

A pessoa que tem a afetividade como o traço forte em sua natureza se deixa dominar pela compaixão e facilmente age por impulso de simpatia e antipatia. Não ousa ser austera consigo mesma.

  • Aspectos positivos: anseio pela doação, compaixão, bondade, compreensão, força sacrifical, adaptação.
  • Aspectos negativos: forte aversão, covardia, indisciplina, dependência de sentimentos, falsa compaixão.

 

A combatividade como impulso de conquista:

A estrutura de personalidade de uma pessoa combativa apresenta como traço característico o espírito de conquista, de luta, de poder. Sua força de vontade é firme, decidida e busca constantemente a realização. O combativo possui condições especiais para ser um bom guia e lutador.

Impelido por intensa energia realizadora e forte impulso para a luta, enfrenta tudo para alcançar o seu fim. Possui ousadia, decisão firme e presteza no agir. Tem coragem para enfrentar a vida e tudo o que aparece em sua frente.

Desejoso por uma vida agitada, com sede de conquistas, busca incessantemente o que anseia. Nada abate o seu ânimo, não tem medos, mas preza a sua honra.

O combativo, se não viver em Deus, pode tornar-se egoísta e ambicioso, cruel, rude, duro e  impetuoso. Sua honra está em primeiro lugar, é capaz de acabar coma as amizades para alcançar seus objetivos.

  • Aspectos positivos: empenho total por uma ideia, generosidade, força, coragem criatividade, organização, capacidade de realização.
  • Aspectos negativos: orgulho, ambição, egoísmo, dureza de coração, auto suficiência, interesse pessoal, impetuosidade.

 

Nunca encontraremos as tendências fundamentais ou impulsos da nossa natureza de forma pura, isto é, sem mistura. É a mistura destas manifestações que dá o sabor, a beleza da natureza, o que de fato somos. A esta mistura,  este  “tempero”, chamamos de temperamento, e é este temperamento que indicará quais as reações que normalmente teremos em diversas situações. Conhecendo nosso temperamento e de nosso cônjuge poderemos agir de forma a nos tornarmos seres melhores, a cumprirmos nosso batismo, nos tornando Santos da vida diária.

Você conhece os temperamentos? Sabe qual o seu? Certamente existem diversas teorias sobre os temperamentos, de sorte que foi necessário escolhemos uma, que passamos a desenvolver de forma muito sucinta.

 

CONCLUSÃO

A harmonia dos relacionamentos, depende muito do conhecimento recíproco entre as pessoas. A vinculação pessoal é um contínuo conhecer-se e revelar-se. Ninguém ama a quem não conhece. Cada um de nós é um mistério insondável, uma verdadeira caixa de segredos que só será conhecida se for revelada (AQUINO, 1994), e esta revelação se dá através do DIÁLOGO, assunto do nosso próximo artigo.

 

Alexandre Andre Rossi