Diálogo – preciosa ferramenta

O ditado que “a vida imita a arte”, atribuído a Oscar Wilde,

é aqui extrapolado para “a empresa imita a família”!

 

Explico, ao ler o texto se quiser ir mudando o contexto de família para empresa, vai chegar ao mesmo resultado.

No Antigo Testamento encontram-se muitas alusões à casa e a família como lugar de reunião e de responsabilidade para com a Aliança. No Novo Testamento as primeiras comunidades se reuniam nas casas de famílias, como em 1Cor16,19, Col 4,15, Atos 5,42, Atos 20,20; Rm16, 3-5. Mas a referencia mais antiga e mais direta à “Igreja Doméstica” é de São João Crisóstomo (sec IV) onde exorta os pais de família a fazer de sua casa uma pequena Igreja.

Segundo o Papa Paulo VI a família é a célula da igreja na qual se vivem a ternura, a hospitalidade e a irradiação do evangelho. “Como Igreja doméstica, a família tem a vocação de anunciar, celebrar e servir o evangelho da vida” (evangeli nuntiandi 92).

O Papa João Paulo II diz que “O matrimônio e a família constituem um dos bens mais preciosos da humanidade” e afirma que “a evangelização do futuro depende em grande parte da Igreja doméstica” (abertura da Assembleia de Puebla). Todos sabemos e concordamos com esta afirmação, pois a família é como um porto seguro onde as pessoas se sentem amparadas.

Podemos ainda dizer que a família, de acordo com o projeto de Deus, é como um laboratório do amor, onde as pessoas vivem os valores Cristãos, partilham desde amor e de onde são enviadas para vivenciar este amor.

Para que a família seja de fato este bem precioso, é preciso que cada um exercite os valores que Jesus ensinou e viveu. Mas como fazer isto, em um mundo tão corrido, onde quase ninguém tem tempo?

O diálogo é uma preciosa ferramenta para que as pessoas se encontrem, se conheçam e se amem.

É difícil decidir “dar uma parada” para dialogar em família, mas não é impossível. O diálogo é importante porque ajuda as pessoas a se valorizarem, não pelo que elas fazem ou tem, mas pelo que elas são: criadas a imagem de Deus.

 Para entendermos o diálogo vale a pena destacar dois conceitos fundamentais o ESCUTAR e o FALAR:

Escutar é mais do que ouvir, pois ouvir é algo físico, natural e automático, às vezes ouvimos sem prestar atenção. ESCUTAR é diferente, exige esforço, trata-se de compreender, de colocar-se no lugar do outro, de oferecer colo, de dar proteção, de chorar junto. Escutar envolve além do ouvido, os olhos, os braços, a inteligência, a vontade, o coração e a alma, assim o outro se abre com mais facilidade e os bloqueios se rompem.

Falar é mais que se comunicar, pois podemos nos comunicar com poucas palavras, em outra língua, com gestos, com desenhos, através da pronuncia de algumas palavras, com a repetição de histórias, contar fatos.  FALAR envolve o âmago, a parte mais intima de cada ser, é algo que brota do fundo da alma, é colocar sentimento, vida, intenção, atenção, foco, é abrir seus medos, seus anseios, é compartilhas suas alegrias e conquistas, é comunicar o que se SENTE.

Para que o diálogo aconteça aprendemos que precisam existir duas pessoas, e é isto que precisa ser reforçado, as PESSOAS. O diálogo que estamos sugerindo aqui é o diálogo de pessoas e não de fatos apenas. Desta forma entendemos que  dialogar é abrir-se  ao outro, revelar o mistério profundo que Deus, desde o sempre, encravou em nosso coração. Dialogar não é conversar, é muito mais que isto, é abrir-se ao outro, para o outro e com o outro. Dialogar é amar…

Segundo TOALDO, existem quatro as formas de diálogo: Racional, afetivo, físico e sobrenatural.

Para se construir uma família, uma comunidade de vida e de amor, é preciso que aprendamos a praticar essas quatro dimensões de diálogo entre todos os membros de nossas famílias.

 

  1. Diálogo Racional.

A dimensão racional refere-se à inteligência e a vontade. O encontro das pessoas nesse plano realiza-se através do conhecimento mútuo, dos esposos entre si e destes com os filhos, pois como diz o velho ditado, “ninguém ama o que não conhece”.

Por que acontece que pessoas estão juntas e não se conhecem? Porque na maioria das vezes acabamos por conversar e não dialogar.

CONVERSAR é falar de algo que não nos diz respeito diretamente. É falar de fatos exteriores que não nos envolvem, é transmitir notícias, informações, relatar fatos ou acontecimentos que se referem a terceiros.

DIALOGAR RACIONALMENTE é comunicar ao outro o que vai dentro de mim, o que é meu, o meu âmago,  o que eu penso, o que gosto ou não gosto, o que quero ou não quero, os meus sonhos, os meus projetos, minhas alegrias, tristezas, conquistas, decepções, valores, o que me motiva, etc.

“Conhecer o ser humano não é conhecer uma coisa; algo que se possa classificar, enumerar, prever, programar e colocar numa prateleira com sua classificação. Se queremos dialogar racionalmente, é preciso revestir-se de respeito e amor. O respeito que faz com que nos detenhamos e admiremos a grandeza do tu. O amor que leva a interessar-se e a abrir-se ao outro, afirma Toaldo.

DICA – Para que o casal possa crescer no Dialogo Racional, é imprescindível que marque uma hora semanal específica para treinarem esta troca de sentimentos. Um dia e horário fixo na semana, assim não se tem a desculpa: agora não estou com cabeça ou vontade!

 

  1. Diálogo Afetivo

Quando as pessoas se encontram no plano afetivo e demonstram o seu amor, isto é, quando manifestam as emoções e sentimentos que sentem pelo outro, acontece o diálogo afetivo e o CARINHO é a forma de concretizar esse diálogo.

O carinho são os gestos por meio dos quais expressamos o nosso amor pelos outros, como o beijo, o abraço, o afago, o aperto de mão, uma palavra, um olhar, um sorriso…

O encontro das pessoas para dialogar afetivamente por meio do carinho, precisa ser pleno de boa vontade, de estima, de ternura, de abertura para o outro.

DICA –  Três gestos de carinho por dia para cada membro da família, espantam qualquer problema de relacionamento.

 

  1. Diálogo Físico

Como nos encontramos fisicamente no lar? Como nos amamos fisicamente? E, em decorrência, como dialogamos fisicamente? Há muitas oportunidades de nos encontrarmos fisicamente no lar. São os momentos em que nos prestamos mutuamente serviços ou favores, momentos que, muitas vezes, passam desapercebidos, mas que são importantíssimos porque nos mostram o quanto somos dependentes uns dos outros, o quanto precisamos do amor uns dos outros, de modo todo particular na família.

São exemplos:

A mãe falando para filha: – Luísa, por favor, vem alcançar o chinelo ao seu pai que acaba de chegar.

Pai: – Meu filho, por favor, alcança o jornal que está lá na sala…

Filho: – Mamãe, esqueci a toalha de banho, me alcança por favor.

Filha:  – Não encontro….quem me ajuda a procurar?

Para que o encontro seja pleno e o diálogo físico aconteça é necessário que haja espírito de serviço e gratidão. Em síntese, o diálogo físico acontece quando pela prestação de um serviço ou favor, como simples alcançar um objeto, transmito o meu amor à pessoa que o recebe.

DICA – Este é o diálogo que deve ser nutrido pelas três palavras que o Papa Francisco recomenda aos casais: Com licença, obrigado e desculpe-me.

  1. Diálogo Sobrenatural

É o encontro individual,  do casal e da família em Deus e com Deus. São Paulo nos ensina “Nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28), em Deus o casal e a família se encontram e com Ele dialogam alcançando graças e forças, para realizarem-se como comunidade e como pessoas individualmente, a fim de que todas possam cumprir a sua missão pessoal e da família: guardar, revelar e comunicar o amor.

A oração é o diálogo com Deus, através do qual elevamos a nossa alma, a nossa mente e o nosso coração a Deus e entramos em comunicação com Ele. Como família precisamos rezar juntos, reservar momentos próprios para nos encontrarmos com Deus dentro das quatro paredes do lar. A família é a Igreja doméstica ou a pequena Igreja e nela precisa ser cultivada a oração. À medida que os membros da família se relacionam com Deus, relacionam-se melhor e mais estreitamente entre si, sentem-se mais unidos e mais fortes para enfrentar todas as dificuldades, obstáculos e problemas que a vida apresenta.

DICA – Criar um espaço religioso no lar e participar juntos como família da missa que é a oração principal, a mais importante, a mais valiosa de todas as orações.

 

RESUMINDO, O QUE É DIÁLOGO ?

  • é o caminho pelo qual abrimos e participamos aos outros a nossa própria intimidade;
  • é abrir o coração e compartilhar o mais íntimo de nós mesmos;
  • é um intercambio vital do mais próprio e profundo;
  • é condição de fecundidade;
  • é condição para a geração de uma nova vida segura e madura;
  • através dele se logra a complementação espiritual, afetiva e biológica;
  • condição de mútuo enriquecimento;
  • condição para fazer-se “um só coração e uma só alma”;
  • atualiza a atração mútua, enriquecendo-a;

  

DIÁLOGO É O ENCONTRO DE DUAS PESSOAS COMO PESSOAS

  • é um encontro dinâmico e pessoal de dois seres;
  • é um dar-se e receber-se mutuamente por amor;
  • é aprender a admirar, é vencer a vulgaridade, o desprezo, a indiferença (quem não é capaz de descobrir o positivo do tu, não é capaz de dialogar);
  • é o estar no outro, é uma comunicação tão profunda que leva a sair de si mesmo para estar no outro e para o outro.
  • existe quando o encontro é pessoal e personalizante, quando compromete a pessoa, quando significa um dar e receber daquilo que é próprio: opiniões, sentimentos, convicções, propósitos, atitudes, princípios;
  • existe quando ambos se compreendem profundamente, quando existe “sintonia” – sintonia se manifesta não só na palavra, mas também em um olhar, um sorriso, um gesto (vale por mil palavras)

  

Alexandre Andre Rossi